Iniciar o dia com uma boa leitura tem sido rotina há uns dias. Após um período sem inspiração para ler mais que obrigações docentes ou concurseirísticas, dei-me conta de que a leitura me move no sentido daquilo que realmente sou. Não posso ficar sem ela. Nem sem o cafezinho que a acompanha. É preciso encaixar na rotina.
Já faz um bom tempo que ouvi falar de um escritor
norte-americano chamado Philip Roth, falecido em 2018. Eu fico garimpando a
enormidade de escritores que existem ou já existiram na tentativa de encontrar
algo que me mova, uma busca incessante de um poço petrolífero de onde tirar meu
combustível. Foi assim que me propus a conhecer a obra desse judeu premiado e
cancelado por muitos.
Sendo assim, fui no bom e velho YouTube buscar algumas
referências. Depois de dois vídeos sobre o escritor, decidi iniciar a leitura
de Roth por Zuckerman acorrentado, um conjunto de três romances e um conto. O
primeiro romance, O escritor fantasma, é dedicado a ninguém menos que Milan
Kundera. Deve ser coisa boa! pensei. Há poucos escritores que me prendem como
Kundera me prendeu. A capacidade de narrar sentimentos, a condição humana
através de ações cotidianas é algo que realmente me impressiona. Senti isso
quando li Pascal Mercier (Trem noturno para Lisboa) e o próprio Kundera. Decidi
experimentar.
Nessa manhã de domingo em que escrevo, leitor curioso,
terminei de ler a obra O escritor fantasma. E que obra! Literatura de verdade,
rara de encontrar. Em vinte e quatro horas de enredo principal, construiu-se o
romance inteiro. Exploração de sentimentos, significações de momentos simples.
Tudo aquilo que eu buscava. Estou tentado a terminar a coletânea muito
brevemente.
Você deve estar se perguntando sobre o que o enredo fala, se
isso que escrevo é uma resenha ou uma crônica, qual a minha intenção com esse
texto. A intenção é somente praticar a escrita, que não deve esperar momentos
grandiosos de inspiração ou pretensões superiores. O gênero talvez se aproxime
de uma crônica mal feita, despretensiosa.
O escritor fantasma traz a visão de um homem, um judeu de
vinte e três anos que quer ser escritor. Os vídeos me disseram que Philip Roth tem
criaturas que imitam o criador. Algo de que ele não consegue fugir, sem dúvida
alguma, é a sua condição de judeu... e de homem. Um drama familiar permeia a
obra: a tentativa de se desacorrentar das amarras criadas pela família e pela
condição de judeu. Poderia ele falar de judeus, com personagens judeus e se
furtar a analisar o caráter humano e seus defeitos? O mundo cheio de
antissemitismo e um escritor deve mesmo se debruçar sobre o caráter dos seus
dessa forma? Um dilema familiar. Há também a busca do jovem escritor por um “pai”,
um mentor, uma referência, ou melhor, por reconhecimento dos grandes. E isso
pode refletir justamente a decepção que sentiu em sua própria casa. São essas
as questões levantadas que me remeteram à ideia de um “escritor acorrentado”.
São dilemas que certamente Philip Roth deparou quando era um jovem escritor da Costa
Oeste dos Estados Unidos. É por isso que seu protagonista Nathan Zuckerman
passa.
Propositalmente, e porque não a pretensão do texto, vou
deixa-los só com essas poucas linhas sobre a obra, que me agradou muito. Quem
quiser saber mais que leia. Não vou estragar o prazer da descoberta. Quero
voltar a ler Roth em breve. Quem sabe não decido escrever uma resenha de
respeito. Agora, ainda tenho algumas tarefas para fazer. Hoje, o penúltimo
domingo de março, é um dia de descanso, mas também das prosaicas obrigações
cotidianas. Vou dar banho nos animais. Até breve!
PS: Leiam Philip Roth.